domingo, 17 de janeiro de 2021

DOS BODES EXPIATÓRIOS OU DA CULPA DE BOLSONARO NO BRASIL E DOS PORTUGUESES EM PORTUGAL

Disclaimer: Não aprecio absolutamente nada Jair Bolsonarp, do ponto de vista ideológico e das suas intervenções (irresponsáveis, quase sempre), quer em geral quer em particular na gestão política da covid. Posto isto, vamos a factos

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Durante a pandemia, o Brasil atingiu um pico de óbitos por covid em 28 de Julho, durante o seu “Inverno” (hemisfério sul): 1.554 mortes. Entre Maio e finais de Agosto, a média móvel (7 dias) esteve sempre a rondar os 900 mortos por dia, tendo depois decrescido e aumentou de novo a partir de Novembro. Actualmente, os óbitos diários estão próximos de 1.000.

Ora, como se sabe, disto tudo, a responsabilidade e a culpa é de Bolsonaro. Nenhuma responsabilidade ou culpa existe para os Governos Estaduais. Muito menos é culpa ou responsabilidade da população.

Mas, vamos lá fazer um exercício simples. Olhemos para o Brasil e para Portugal com olhos decentes e sem estrabismo ideológico e sem miopias emotivas. O Brasil tem 211.755.692 habitantes (segundo o IBGE); Portugal apenas 10.286.263 habitantes. Portanto, o Brasil tem 20,59 mais pessoas do que Portugal.

Sigam então o meu raciocínio (alguns jornalistas já se vão perder): o pico de 1.553 brasileiros mortos naquele pico de Julho corresponde, proporcionalmente, à morte de 75 portugueses. Eh pá! Já tivemos dias acima de 75 mortes? Resposta: já. Tivemos 42 dias acima de 75 mortes. A sério? Claro que sim! E 32 desses dias foram desde 1 de dezembro último.

Pois é, isto de contar sem ter a noção das proporções dá erros destes. Notem: desde 1 de Dezembro, o Brasil (que vive o seu “Verão”) contabilizou 35.488 óbitos por covid, enquanto Portugal conta 4.132. Um jornalista dirá: morreram por covid, neste período, quase 9 vezes mais brasileiros do que portugueses. E assim é, se tivermos a inteligência de um cangalheiro a contar caixões.

Porém, se tivermos neurónios, também nos podemos aperceber que, afinal, os 35.488 óbitos no Brasil correspondem a 1.724 portugueses. Ou seja, afinal a mortalidade por covid desde 1 de Dezembro é 2,4 vezes superior em Portugal. E o nosso pico de mortes (166 no dia 15 de Janeiro) corresponderia a 3.417 mortes no Brasil. Alem disso, na última semana, os óbito diários em Portugal estão, por norma, mais de três vezes superior aos do Brasil.

Claro que se a situação no Brasil fosse agora similar à de Portugal, a culpa era do Bolsonaro. Aqui é dos portugueses. Quando as coisas correm mal no Brasil (e muito menos mal nos últimos tempos em comparação com Portugal), a nossa Imprensa pede a cabeça de Bolsonaro; quando começam a correr mal em Portugal, a nossa Imprensa pede a cabeça dos portugueses. 

E António Costa é um santo homem. A ministra da Saúde idem. E mesmo os quatro ministros que já se infectaram, são umas vítimas do desleixo do Povo.

Deixo-vos, por fim, para se entreterem a ver as diferenças, uma análise diária, desde 1 de Dezembro até 15 de Janeiro, sendo que os óbitos padronizados estão com uma média móvel de 7 dias, tendo em consideração a metodologia brasileira do registo.

E lembrem-se: a situação portuguesa é da culpa dos portugueses.  Repitam isso mil vezes. 

Fonte: Worldometers, INE e IBGE.


DA MORTE E DO PÂNICO

Na última semana tem ocorrido uma situação deveras estranha num país dito desenvolvido: um pico de mortes em meio hospitalar não é acompanhado por um crescimento no afluxo às urgências hospitalares. Julgo que apenas num cenário de terramoto é que seria suposto isto suceder: as pessoas que seguiriam para o hospital estavam já em tão mau estado que uma parte significativa acabaria por morrer; e as outras tão apavoradas ficam pelas réplicas que, mesmo sentindo problemas, não arredam pé dos escombros.

Reparem: nas duas primeiras semanas de Janeiro deste ano, apesar da existência simultânea de uma pandemia (que veio substituir, nesta época, os habituais surtos gripais) e de uma intensa vaga de frio, o afluxo de urgência reduziu-se 32,5% em comparação com o período homólogo dos últimos quatro anos (165.464 vs. 245.290).

Ao invés, a ocorrência de óbitos em meio hospitalar pelas mais variadas causas foi, para o mesmo período deste ano, de 4.922. Houve dias com mais de 400 óbitos, coisa inédita deste que existem registos. O pior ano anterior, para este período, era 2017 com 3952 óbitos em meio hospitalar. 

Temos obviamente que contabilizar, em 2021, o contributo dos óbitos por covid, mas deveríamos também deduzir os óbitos que previsivelmente ocorreriam de pneumonias decorrentes da gripe (que praticamente desapareceram), bem como as mortes que deveriam ser atribuídas a outras causas mas que pela metodologia covid acabam por ser culpa do SARS-CioV-2.

Mas a questão é essencialmente esta: em anos anteriores, as variações da intensidade dos surtos gripais e as vagas de frio tinham uma relação directa com o afluxo às urgência. Significa que se usarmos uma métrica (atenção: uma métrica é um indicador que fornece informação sobre variáveis não necessariamente correlacionadas) que cruze os óbitos em meio hospitalar com a afluência às urgência, essa métrica deve ser constante. 

Porém, vejam o que sucede nos anos de 2017, 2018, 2019 e 2020. Esta métrica sofre ténues variações quer entre anos, quer entre dias do mesmo ano: Comparando estes anos, está relativamente estável entre os 13 e os 17 (óbitos diários nos hospitais por 1.000 utentes atendidos nas urgências). Normal, portanto.

Que sucede em 2021?  Dispara 30 óbitos por 1.000 utentes, tanto por causa do aumento significativo de mortes como pela redução do afluxo às urgência. Mais que duplica em comparação com quase todos os anos. Na segunda semana chega a ter dias com o índice em 37.

Estes valores mostram uma significativa anormalidade do SNS que reflecte o estado do país: perdeu o controlo da pandemia e das outras doenças, ganhou em pãnico da população. O resultado está num lamentável aumento das receitas dos cangalheiros. 

Fonte: SNS e SICO-eVM


DA BOLA DE CRISTAL DE UM ALDRABÃO

O Doutor Scimerdas ( Scimed - Ciência Baseada na Evidência) diz que apenas se equivocou porque viu “o relatório relativo a 4 semanas e não o relatório completo sobre o excesso de mortalidade associado à covid”. E diz ainda que citou na entrevista esse estudo, colocando mesmo o link para uma notícia. Sucede que essa notícia refere-se a um relatório do INE de 11 de Dezembro de 2020 (vd. aqui). A notícia também é de 11 de Dezembro de 2020 (vd. aqui).

A entrevista do Doutor Scimerdas é do dia 1 de Dezembro, ou seja, 10 dia antes.

Começo a ter medo do Doutor Scimerdas. Ele vê o futuro. Ele lê o futuro. Ele vê e lê relatórios hoje que serão escritos e publicados no futuro. Por isso, já viu que todos vamos morrer...

Lá diz o povo: mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo.



DO ESPUMAR DE RAIVA

O Doutor Scimerdas (vd. post anterior aqui) ficou danado por lhe ter posto o rigor com tanta pilosidade como a envolvente da caixa que lhe transporta o vácuo entre as orelhas. Prometeu-me guerra, mas para primeiro tiro foi fraquinho... Diz ainda que circula por aí que tenho a alcunha de Professor Pardal. Um elogio, neste caso. Escolho assim um dos meus heróis de infância como foto de perfil.

DA PATETICE TRAVESTIDA DE RIGOR

Há um médico que, nos últimos meses, zurze com termos pouco meigos em todas as posições e opiniões não-apocalípticas sobre a covid. É "dono" de uma página chamada  Scimed - Ciência Baseada na Evidência, e ainda há dias deu forte e feio na Joana Amaral Dias por ter dito na televisão que, no passado, houve um dia em que morreram 500 pessoas de gripe.

Teve toda a razão o Senhor Doutor Scimed, chamemos-lhe assim, em dar cacetada na psicóloga: efectivamente, nunca houve um dia com tantas mortes por gripe; houve sim alguns dias (p. ex., 2017), em pleno surto gripal, que ultrapassaram os 500 óbitos no total de todas as causas (a média em Setembro, o mês menos mortífero é de 270 óbitos totais por dia). E já houve também anos (Outubro-Maio) com cerca de 8.500 óbitos atribuídos a um surto gripal.  

Eu gosto muito de pessoas rigorosas e não suporto alguns erros. E outras coisas que também não suporto é ver ferreiros com espeto de pau; ou trolhas com telhados de vidro. 

Ora, deu-se o feliz caso de ter esbarrado entretanto com uma extraordinária entrevista, a todos os títulos, do dito médico (acompanhado pelo impagável doutor Gustavo 'vão tudo morrer' Carona), feita em 1 de Dezembro. Regressarei a ela, talvez, porque é um manancial. 

A páginas tantas, o Doutor Scimed responde a uma pergunta (ao minuto 10:10, vd. aqui) sobre o excesso de mortalidade então anunciada pelo Instituto Nacional de Estatística em finais de Outubro, da seguinte forma (sic, mas podem e devem confirmar no link).

"É assim. Segundo as contas do INEM (sic), o (sic) covid ficou com mais de 80% das mortes em excesso. OK, isto são contas do INEM (sic). Eu não olhei para as contas ainda. Percebo que as contas, olhando de uma forma simplista, aponta para esses valores que estão aqui a ser falados, mas de facto o INEM (sic) fez o estudo que diz que 80% são atribuídos ao (sic) covid".

Eu já desculpo que o senhor Doutor Scimed se refira à doença causada pelo SARS-CoV-2 colocando-lhe substantivo masculino. Ele não é obrigado a perceber de gramática. 

Já torço um bocadinho o nariz - mentira: acho divertidíssimo, digno de risota - quando o Doutor Scimed se refere por três-3-três vezes ao INEM (acrónimo de Instituto Nacional de Emergência Médica) como entidade responsável pelo estudo, quando os estudos demográficos são, em geral, e neste em concreto, feitos pelo INE (acrónimo de Instituto Nacional de Estatística). Portanto, estou muito interessado em saber se, mês e meio depois, o Doutor Scimed já olhou as tais "contas do INEM".

Por fim, e isto é objectivamente pior, o Doutor Scimed, assumindo-se que nem passou os olhos pela análise do INE (porque nem o acrónimo conhece), não mostrou o rigor que exige ao outros, e disse mais do que um disparate. Com efeito, a análise do INE referia - e bastava ler o primeiro parágrafo (vd. aqui) - que até 18 de Outubro a covid apenas explicava 27,5% do excesso de óbitos. No final do ano acabaria por rondar os 50%. Em todo o caso, muitíssimo longe dos "mais de 80%" atirados vergonhosamente ao ar pelo Doutor Scimerda.



sábado, 16 de janeiro de 2021

DO CAOS AO DESERTO EM 24 HORAS

Depois de terem perdido a fila de ambulâncias de ontem, os jornalistas não deviam perder a oportunidade de entrevistar em directo a ÚNICA pessoa que está, neste preciso momento, nas sala de Urgências (para atendimento) do Hospital de Santa Maria. 

Mas têm de correr mesmo, não vá ele ir-se embora entretanto, até porque só está com a pulseira amarela....


DA GRANDE FARSA

Depois de ontem um "oportuno" vídeo ter mostrado uma fila de ambulâncias nas urgências do Hospital de Santa Maria, estou à espera de ver o mesmo esta noite. Por agora, consultando o site do SNS estão apenas 4 pessoas a ser atendidas. No entanto, sabe Deus (ou se calhar nem Ele) se não estão, agora mesmo, a caminho umas 20 ou 30 ambulâncias para as fotografias.

Nem de propósito, hoje um administrador do Hospital de Santa Maria veio dizer que em "15 dias, a procura [hospitalar] cresceu 70%", traçando um cenário apocalíptico se as pessoas não se portassem  bem.

Eu, que já me devia chamar Tomé (embora não seja Santo), fui ver como estiveram as urgências, bem como os internamentos resultantes dessas urgências no Santa Maria, ou melhor, no Centro Hospitalar de Lisboa Norte, onde ele se integra (e é o principal hospital). Fui ver dados oficiais.

Pois bem, vejam os gráficos com dados do SNS. Oficiais, portanto. 

Entre 1 e 14 de Janeiro de 2021 houve 6.157 episódios de urgência neste centro hospitalar que contrasta com 10.196 episódios no mesmo período de 2020 (queda de 40%). Nos internamentos (vindos das urgências, que inclui entrada de doentes covid), entre 1 e 14 de Janeiro de 2021 houve 719 casos, o que contrasta com 1.055 em igual período de 2020 (queda de 32%). Notem também que os valores dos últimos dias disponíveis (13 e 14) nem são sequer os mais elevados de Janeiro de 2021.

Se compararmos estas duas semanas de Janeiro (1-14) com as duas últimas semanas de 2020 (18-31 de Dezembro) verificamos que houve apenas um acréscimo de 5% nos episódios de urgência (e não 70%), passando de 5.878 para 6.157 episódios. No caso dos internamentos, as duas primeiras semanas de Janeiro de 2021 tiveram apenas mais três casos do que as duas últimas semanas de Dezembro de 2020. Note-se que as afluências às urgências, mesmo com a vaga de frio, continuam abaixo dos valores mais baixos pré-covid em qualquer mês do ano.

É certo que os protocolos para a admissão de doentes-covid são mais complexos, mas basta de mentiras sobre mentiras sobre mentiras. Esta farsa não pode continuar. É pornográfica, porque estamos a falar em vidas humanas. Assustar, implicita e explicitamente, as pessoas para que não irem aos hospitais porque se cruzam com doentes-covid ou porque as urgências estão (falsamente) cheias é eticamente reprovável. E chega a ser criminoso.

Fonte: SNS




DO FUGIR POR ENTRE OS PINGOS DA CHUVA OU DA NECESSIDADE DE ACORDAR ANTES DE SE MORRER

Antes de 2021, contabilizavam-se apenas três dias com mais de 500 óbitos diários (desde que se iniciaram estes registos, em 2009). Neste nosso Janeiro, o nosso Inverno do Descontentamento, que conta por agora 16 dias, teremos em princípio com a contabilização de hoje, 12 dias consecutivos com mais de 500 óbitos e sete dias consecutivos com mais de 600 óbitos. O dia mais morífero é 11 de Janeiro com 661 óbitos.

Isto não é tudo por causa da covid, embora com a "narrativa" criada em redor do Natal e do Ano Novo, e dos abraços e beijos, e das máscaras supostamente que não se usavam, e dos ministros que afinal também ficaram infectados, tudo se centra agora na covid, e nada no resto. A Imprensa fala de covid. O Governo fala de covid. O Presidente da República fala de covid. Os candidatos a Presidente da República falam de covid. O Povo fala de covid. Os Intelectuais falam de covid. Ah, e também de livrarias. 

E quase ninguém fala do resto. E o resto é tudo. O resto é o caos que é, não sendo dito, culpa do Governo. É,.E deveria ser um ponto inicial para uma discussão. Para acção. 

O resto é um população, sobretudo débil, sobretudo idosa, ainda mais débil agora por desacompanhamento médico ao longo dos últimos 10 meses; que chega ao Inverno e apanha uma vaga de frio sem que haja um plano de contingência, 

Que chega ao Inverno e apanha uma vaga de frio com campanhas da DGS a apelarem para não correr para as urgências se se sentir doente. 

Que chega ao Invermo e apanha uma vaga de frio, e tem medo de ir às urgências se se sente doente, porque também vê agora na TV umas filas de ambulâncias plantadas em certos hospitais, apesar do número de atendimentos nas urgências estarem actualmente muito mais baixo do que em Janeiro de 2020 (p. ex., anteontem houve 11.224 episódios de urgência hospitalar; no mesmo dia em 2020 houve 19.679). 

O desastre em termos de Saúde Pública anda aí a ceifar vidas sem que ninguém questione o Governo. É tudo por causa da covid, não é? É só a covid que justifica que nos primeiros 3-4 dias de Janeiro a mortalidade estivesse na casa dos 400 óbitos diários, e agora estarmos bem acima dos 600, não é? 

É só por causa da covid que nas duas primeiras semanas de Janeiro tenham morrido 1.696 pessoas em Lisboa quando a média é de 1.080? É só por causa da covid que a mortalidade no distrito de Évora aumentou 78%., não é? E que o Alentejo inteiro (pouco habituado ao frio) está a ter uma enome mortandade neste Janeiro, sendo que o acréscimo não é tão grande no Norte (onde o frio é mais suportável pela população), não é? 

Morre-se só por causa da covid, não é? O Governo anda interessadíssima que se fale só de covid, assim se furtando de responsabilidades pela covid e tudo o resto, que é tudo. É toda uma arte de se fugir da chuva por entre os pingos da chuva. Não é para todos. António Costa está, neste aspecto, de parabéns como líder de um Governo que quer manter o poder. Porém, como primeiro-ministro de um país que deveria ser decente, não.

Apetece-me dizer-vos ao gritos: ACORDEM, ANTES DE MORREREM!

DO COLAPSO

Errei por 6 a previsão do número de óbitos de ontem, mas esse erro deve-se a um problema muito mais grave: a taxa de mortalidade nos internados aumentou um bocadinho mais (basta umas centésimas para tal acontecer). Faço nova previsão: 169 para o dia de hoje (16/1). Existe obviamente uma margem de erro, sendo que se o valor for mais elevado significa que houve ainda mais degradação do colapso no SNS; se for menor, uma melhoria.

Porém, nas minhas análises, apurei um aspecto mais relevante e preocupante: estes valores estarão sempre nesta ordem de grandeza enquanto, efectivamente, não se conseguir descer o número de internados para baixo dos 3.500. O Governo tem agora uma estratégia: como se fiou na sorte e não apostou num reforço de meios humanos e técnicos (anunciou apenas camas, que nem sequer parecem existir), exige agora que não fiquemos doentes. Se se morrer, a culpa é do doente. Imaginem no futuro alguém ter um acidente de trabalho, ser levado ao hospital e o encontrar fechado: morre mas a culpa é sua, porque foi descuidado e sofreu o acidente.

Notem que em 23 de Outubro existe um comunicado do SNS do onde se refere taxativamente que existe "um total de 17.700 camas para assistência à pandemia". (vd. aqui).

Como chego ao número de internamentos a partir dos quais o sistema entra em colapso. De uma forma muito simples: sendo os óbitos uma função dos internamentos, fui verificar se se verifica uma tendência linear à medida que os internamento aumentam. Até aos 2.500 intrernados é quase: por cada mil internados ocorrem cerca de 20 óbitos. Porém, a partir dos 2.500 internados, os óbitos já apresentam uma grande amplitude, e sobretudo a partir dos 3.500 internamentos (a situação actual), o desastre evidencia-se. Notem que em todos os cinco dias com mais de 4.000 internados, o número de óbitos diários suplantou os 140.

Se não houvesse colapso, e estivessemos perante um SNS bem oleado, a mortalidade de ontem (166 óbitos) seria alcançável apenas quando se registassem cerca de 6.500 internamentos. E, na verdade, com o actual número de internamentos deveríamos ter entre 100 e 110 óbitos.

Tendência para os próximos dias: os níveis de mortalidade vão manter-se nesta escala de grandeza. 





sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

DO CONTO DE NATAL COMO PARTE DA ANTOLOGIA "A GRANDE NARRATIVA"

Há toda uma narrativa, já enraizada no Povo, pela Imprensa e Governo, de ter sido o Natal e o Ano Novo que fizeram disparar em Janeiro os casos positivos, os internamentos e as mortes. 

Ou seja, a culpa foi exclusivamente das pessoas e dos seus encontros familiares e com amigos, e não é culpa da natureza de um vírus sazonal, nem é culpa dos contactos nos transportes ou no emprego, nem é culpa do Governo que não soube equipar o SNS com meios necessários para uma doença que, pelos protocolos impostos, necessitava de um reforço de meios para este Inverno.

Bem se sabe que a transmissão do SARS-CoV-2 é maior do que as de outros agentes infeciosos. Porém, também é certo que, nos outros Invernos e nos outros Natais e festividades do Ano Novo, as pessoas tiveram incomensuravelmente uma muitíssimo maior proximidade, o que deveria, se assim fosse líquido, ter desencadeado nas semanas seguintes muiíssimas mais infecções, e portanto muito mais gripes e outras infecções respiratórias.

Será sempre assim? Fui ver. E a resposta é. não!

Peguei nos registos do SNS das gripes e outras infecções respiratórias do dia 23 de Dezembro dos anos de 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020, comparando-os com o dia 14 de Janeiro do ano seguinte.

No período 2020-2021, embora com níveis muito mais baixos, é certo que as infecções respiratórias aumentaram. Porém, nos anos 2016-2017, 2017-2018 e 2019-2020, os casos de infecção respiratória em 14 de Janeiro eram inferiores aos registados na antevéspera do Natal anterior. Em 2018-2019 aumentaram, mas não me parece que tenha existido comportamentos diferentes das pessoas durante as festividades, Sucedeu assim porque, enfim, não se controla tudo, mesmo sabendo que existe uma sazonalidade nas infecções respiratórias, não se podendo determinar uma causa directa entre Natal/Ano Novo e aumento de infecções respiratórias.

Em suma, a ideia enraizada do Natal e Ano Novo terem feito disparar as infecções respiratórias, e, por dedução, os casos positivos de covid, carece de evidência. Mas faz já parte da Grande Narrativa de culpabilização dos portugueses.

Fonte: Monitorização da Gripe e Outras Infecções Respiratórias (SNS, aqui).

DA EFICÁCIA HOSPITALAR E DO COMO ISSO PODE FAZER UMA DESGRAÇA

Durante as últimas semanas, Governo e comunicação social tentaram, e conseguiram, criar a ideia da existência de uma relação directa e linear entre casos positivos, internamentos e mortes. Não é bem assim, pelo contrário, como ontem bem demonstrei. 

Com efeito, caso não haja aldrabice na contabilização dos óbitos por covid (para atenuar o excesso de mortalidade não-covid), então Portugal assistiu a uma degradação acentuada dos níveis de eficácia no tratamento hospitalar desta doença nos últimos cinco meses.

Em Setembro e Outubro (Cenário OUT), a taxa de mortalidade diária dos internados rondou 1,5%. Ou seja, sobreviviam (para o dia seguinte) 98,5% das pessoas internadas.

Em Novembro e Dezembro (Cenário DEZ), esta taxa de mortalidade diária subiu para 2,5%, significando assim um agravamento da eficácia hospitalar.

Agora, em Janeiro (Cenário JAN), a taxa de mortalidade está já a rondar os 3,5%. 

Parecendo uma subida pequena, as consequências de uma perda de eficácia hospitalar são dramáticas, mesmo quando estamos a falar de subidas aparentemente perquenas (2 pontos percentuais entre Outubro e Janeiro).

Para se ter uma ideia mais concreta em termos de óbitos, vou começar, sempre se que revelar possível e pertinente, a minha previsão de óbitos para o dia corrente (face ao número de internados do dia anterior e à taxa de mortalidade vigente), confrontando com o número de óbitos (para o mesmo número de internados) que se teriam se a eficácia de tratamento hospitalar estivesse nos níveis de Outubro e de Dezembro (Cenários OUT e DEZ, respectivamente).

Talvez isto recentre o debate: a fatalidade de uma doença, independentemente de ser covid, nunca depende apenas do doente, mas depende sim fortemente do investimento de um Estado nos cuidados de saúde destiados a curar o doente. Isto parecia evidente no passado; parece que o Governo e a Imprensa nos inculcaram a ideia que não; que a culpa é exclusivamente dos doentes que ficam doentes.

Assim sendo, amanhã, a DGS deverá divulgar que morreram ao longo do dia de hoje 160 pessoas com covid. Seriam menos 46 por covid se os hospitais estivessem com a eficácia de Dezembro; seriam menos 92 mortes por covid se estivessem com a  eficácia de Setembro.

Quem não tiver podido ir às livrarias hoje, não tendo assim nada para se entreter, tem aqui um bom ponto de reflexão.

Nota: Não faço esta previsão para me armar em, Zandinga, nem com o objectivo de acertar no Euromilhões. Reparem apenas numa coisa;: se o valor efectivo das mortes for superior ao que indico, então a eficácia do tratamento hospitalar ainda piorou; se o número de óbitos for inferior, então melhorou ligeiramente.

Fonte: Boletins diários da DGS.

DAS ELITES E DOS LIVROS

Em resumo, estamos como estamos na actual situação, má até a nível internacional, por duas simples razões: 1) as infecções na população idosa (mais de 80 anos) está descontrolada, sobretudo por causa dos lares; 2) a taxa de mortalidade dos internados está mais de 3 vezes superior à registada em Setembro (ou seja, mais mortes não se deve sobretudo à existência de mais internados, mas sim ao colapso do sistema de saúde).

No entanto, vejo muitos amigos e conhecidos daquilo que se pode chamar “elites da Cultura”, por aqui, muito ciosas da necessidade de confinamento GERAL de TODA a população, mas sem exigir medidas eficazes de controlo das infecções nos lares e sem exigir responsabilidades ao Governo por não ter reforçado o SNS (durante o Verão) na luta contra a covid sem ser à custa do adiamento de consultas e agora até cirurgias oncológicas (e nem assim será suficiente).

Vejo, no entanto, agora, essas elites tremendamente preocupadas e escandalizadas com a falta de lógica por não se deixar as livrarias abertas. As livrarias.

Porém, acham lógica em tudo o resto. 

Eu acho que, de facto, deveria manter-se as livrarias abertas. Mas só com autorização para vender uns livros de Matemática básica, de como interpretar dados e gráficos, de estratégias de Saúde Pública e sobre manipulação de massas. E esperava, depois, que as elites da Cultura fossem lá a correr em vez de continuarem a olhar para o umbigo. E para que se instruíssem. A Cultura não é só artes.

DO ONDE SE PERDE UMA GUERRA

Sempre assumi, praticamente desde o início da pandemia, ser evidente que a covid era uma doença infecciosa que constituía um perigo efectivo, do ponto de vista da Saúde Pública, apenas para a população mais idosa (maiores de 80 anos), e marginalmente para uma franja de pessoas vulneráveis (com determinadas comorbilidades).

Foram também incontáveis os alertas que fui fazendo, ao longo dos meses, sobre a imperiosa necessidade de encontrar uma estratégia sólida e eficaz para os lares, onde vivem cerca de 100 mil pessoas com uma média de idade a rondar os 85 anos. Também me foi sendo cada vez mais evidente que esse grupo etário dos maiores de 80 anos (que tem constituído cerca de 2/3 do total das mortes com covid) não estavam a ser infectado pelos grupos etários mais jovens segundo uma lógica geracional, isto é, serem os filhos ou netos a contaminarem os pais ou avós.

Na verdade, olhando agora para a taxa de incidência dos casos positivos por grupo etário - que já não actualizava há alguns meses (e houve um pulo enorme deste Novembro) -, mais se confirma um padrão associado à mobilidade e à sociabilidade (vd. gráfico, sobretudo as barras vermelhas). Quem se movimenta mais e socializa mais tem maior probabilidade de se infectar. Com efeito, a incidência dos casos positivos cresce  do grupo etários dos 0-9 anos para os 10-19 anos, e atinge um topo (7,2%) no grupo dos 20-29 anos (estudantes e jovens adultos). A seguir há um contínuo decréscimo nos grupos etários mais velhos, até chegar aos 3,3%, no grupo dos 70-79 anos, a primeira faixa dos reformados. Porém, depois não continua a descer para o grupo seguintes (maiores de 80 anos), e isso é um grandíssimo problema. 

De facto, é a partir dos 80 anos que, claramente, se está a perder a guerra. Numa idade com menores contactos sociais e mobilidade (até em comparação com o grupo dos 70.79 anos), os maiores de 80 anos apresentam actualmente uma taxa de incidência acumulada de 6,8%, a segunda maior, pouco atrás do grupo líder (20-29 anos). Em comparação mais uma vez com o grupo antecessor, o crescimento desde Novembro é colossal, passando de 1,8% para 6,3% (mais 4,5 pontos percentuais), enquanto  na faixa etária dos 70-79 anos se passou dos 0,9% para 3,3% (subida de 2,4 pontos percentuais).

Como é de admitir que a esmagadora maioria das pessoas do grupo dos 70-79 anos não é institucionalizada (ou seja, não vive em lares), enquanto cerca de 15% das cerca de 670 mil pessoas com mais de 80 anos vive em lares, será de admitir fortemente que é nos lares que está a raiz do problema. Ou seja, são os cerca de 100 mil idosos institucionalizados em lares que estarão a "empurrar" para cima a elevada taxa de incidência dos maiores de 80 anos.

Quanto? Ninguém sabe porque as informações sobre a situação dos lares continua sem ser validada e conhecida com rigor. Custa a DGS divulgar esses dados com detalhe, e nem parece que haja medidas no terrenos para inverter esta elevadíssima taxa de incidência (só desde o início do ano, em 13 dias apenas, subiu ,2 pontos percentuais).

Vejam que é aqui que estamos a perder a guerra (como, aliás, uma parte importante dos países do mundo ocidental). E não devia acontecer. Numa estratégia eficaz, seria, digo eu, aceitável e até exigível que a taxa de incidência dos maiores de 80 anos fosse (não digo já menor) similar à da faixa dos 70-79 anos, isto é, 3,3%, em vez dos 6,3%. Se assim fosse, significava que em vez de se contabilizarem 42.057 casos positivos desde o ínicio da pandemia, se teria afinal 22.374 casos, o que significava menos 19.683 infecções. E isto é muito.

Se em populações jovens, mais mil menos mil casos positivos, e mesmo mais 20 mil ou menos 20 mil, vai dar ao mesmo (ou seja, níveis nulos ou quase nulos de mortalidade), nos maiores de 80 anos essas diferenças contam. E muito.

De facto, se a taxa de incidência nos maiores de 80 anos fosse de 3,3%, em vez de 6,3%, uima redução dos tais 19.683 casos positivos significaria, à actual taxa de letalidade de 15%, menos cerca de 2.950 vidas perdidas.

Vejam bem. Vejam porque tenho insistido na questão dos lares, e considerado ser um esforço inglório, inútil e contraproducente (de todos os pontos de vista) as tentativas de controlar todas as infecções por covid na população, perante a baixíssima gravidade para a esmagadora maioria da população portuguesa. A guerra contra a covid está nos lares, onde sim é bastante mortífera, sobretudo por via das debilidades quer dos utentes quer das próprias instituições. 

Confesso que as mudanças estruturais para reformar os lares teriam de ser hercúleas, mas não seria melhor isso do que assistirmos a estúpidos confinamentos, ao colapso da vida social, da Economia, da própria Saúde Pública? Torna-se premente tratar esta pandemia com racionalidade, de contrário continuará a causar (ou causará) mais mortes colaterais do que o próprio vírus. E não salvaremos os velhos.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

DO GOVERNO DO POVO E DOS CONFINAMENTOS

Faz todo o sentido que, desde Outubro, um Governo com uma taxa de incidência de covid de 15,0% (3/20 ministros) desde Outubro mande confinar o Povo que, em igual período, regista uma taxa de incidência de 4,3%, porque se andou a portar mal. O povo! Não os ministros!

N.B. - Agora com dados: desde 1 de Outubro registaram-se 437.741 casos positivos, correspondentes a 4,3% da população. Se a taxa de incidência da população fosse similar à dos membros do Governo (15%), entâo haveria 1.527.003 casos positivos. Muito bem se anda a portar os governados face aos governantes.



DAS REVELAÇÕES OU DA HISTÓRIA DO ACERTO NA PREVISÃO E OUTRAS COISAS MAIS IMPORTANTES

O prometido é devido.  E gostaria muito que esta longa explicação fosse lida pelo maior número possível de pessoas.

Vou explicar como esta madrugada, previamente acertei, até à unidade, na mortalidade por covid anunciada esta tarde pela DGS.

Porém, mais importante do que isso, desejo demonstrar que estamos perante um de dois cenários:

Cenário 1 – O tratamento dos doentes-covid piorou assustadoramente desde Setembro, e sobretudo a partir de Janeiro.

Cenário 2 – Sobretudo com a vaga de frio deste Janeiro, a DGS está a manipular as estatísticas da mortalidade por covid para “mascarar” acréscimos de mortalidade não-covid, que denunciariam o colapso do SNS na assistência de outras doenças com repercussões nos óbitos totais.

Talvez a melhor forma de compreenderem será através de uma analogia.

Imaginem que têm um café e eu vos empresto 100 copos para servir 100 clientes. No dia a seguir, vocês dizem-me que um se partiu. Posso dizer que 1% dos copos se partiram. Aplicando aos internamentos da covid (e sempre com base nos dados da DGS), dir-vos-ei que em Setembro, em cada 100 internados num determinado dia, observava-se sensivelmente uma morte no dia a seguir. Ou seja, tal como nos copos, a taxa de mortalidade nos internamentos era de 1% (vd. nota 1 em baixo).

Imaginem agora que o fluxo de clientes do café (ou internados covid) aumentam para 1.000 clientes e, portanto, eu vos empresto 1.000 copos. Por causa desse aumento em 10 vezes do número de copos, já eu sabendo que se partia 1 em cada 100, eu esperava que se partissem 10 copos. Porém, no dia a seguir vocês avisam-se que se se tinha partido 25 copos. Ou seja, partiram-se 15 copos a mais do que seria expectável, e portanto a “taxa de mortalidade” dos copos passou de 1% para 2,5%. Este valor de 2,5% corresponde à taxa de mortalidade que, efectivamente, se passou a observar entre a segunda metade de Novembro e todo o mês de Dezembro nos hospitais com internados por covid.

Isto é, a mortalidade absoluta por covid decorreu do aumento de pessoas internadas (a média diária de pessoas em internamento em Setembro foi de 491; e na segunda metade de Novembro e em Dezembro subiu para uma média de 3.119), mas também houve um agravamento porque se passaram a partir mais copos, ou seja, a não sobreviverem em cada dia do último mês do ano tantas pessoas,  em proporção, como sucedia em Setembro.

Como espero que já tenham percebido a mecânica, abandono a analogia dos copos, e centro-me no que aconteceu em Janeiro com os doentes-covid. Apesar de um aumento diário do stock diário de internados (resultante dos internados do dia anterior e dos fluxos de entradas e saídas), que levou a uma subida de 2.858 em 1 de Janeiro parar 4.368 no dia 14 de Janeiro – e que, por si só, resultaria num acréscimo de mortalidade, aquilo que se observou foi um nova e impressionante escalada na taxa de mortalidade dos internados, de sorte que, num pulo, se passou a situar próximo dos 3,5%, se considerada, como fiz, a média móvel de sete dias. Ou seja, indica uma redução de taxa de sobrevivência diária nos internados de 96,5% no dia de ontem, o que contrasta com cerca de 99% em Setembro. 

Isto pode parecer uma coisa de pormenor, mas tem um efeito brutal na mortes por covid. Com efeito:

a) Se eu aplicar uma taxa de mortalidade de 3,5% aos internados do dia 12 de Janeiro (4.220), eis que obtenho os 148 óbitos para o dia 13 (ontem), o valor que adivinhei (AQUI ESTÁ A REVELAÇÃO MUI SIMPLES).

b) Se eu aplicar uma taxa de mortalidade de 2% (que era a que tinha, com muito ligeiras variações, entre a segunda metade de Novembro e o final de Dezembro) aos internados do dia 12 de Janeiro (4.220), teria então 106 óbitos. Ou seja, menos 42 pessoas mortas apenas num só dia pelo efeito exclusivo da taxa de mortalidade. 

c) Se eu aplicar uma taxa de mortalidade entre 1% e 1,5% (que foi a que se registou em grande parte de Setembro e Outubro) aos internados do dia 12 de Janeiro (4.220), teria então entre 42 óbitos (taxa de 1%) e 63 óbitos (taxa de 1,5%). Ou seja, entre menos 85 e 106 pessoas mortas apenas pelo efeito da taxa de mortalidade. 

Reparem não são valores irrelevantes, mesmo nada irrelevantes, e recentram, na minha opinião, a discussão em termos da eficácia do SNS na resposta à epidemia. Sendo certo que existe uma relação entre maior número de internados por causa do aumento de casos positivos, existe um efeito importantíssimo na eficácia dos serviços hospitalares. 

Este brutal e muito repentino agravamento da taxa de mortalidade pode ter várias explicações (entre as quais a maior debilidade dos internados por causa da repentina vaga de frio), mas também pode resultar na incapacidade do Governo no reforço do SNS para o atendimento dos doentes-covid, não ainda ao nível de camas, mas nos recursos humanos. Ou seja, não podemos continuar a aceitar que o ónus do problema fique sistematicamente do lado dos infectados, quando, na verdade, está muito no lado do SNS, na sua capacidade de resposta ao afluxo de internados.

Porém, e seria bom que os médicos dos hospitais (e a su Ordem) se pronunciassem, e que nos digam se sim ou se não estão a conseguir salvar, proporcionalmente agora, tantas pessoas como em Setembro. E se não estão, porquê. 

Porque se afinal estão a salvar a mesma proporção (isto é, a taxa de mortalidade não se mexeu), então tem de se concluyir que a DGS anda a manipular dados para não mostrar que há excesso não-covid (Cenário 2); só que, fazendo-o, deixa um “rabo” de fora. 

Na verdade, não há grande escapatória: se não está a suceder um acréscimo de óbitos não-covid por causa da ruptura do SNS, está então a ocorrer um acréscimo não natural de mortes por covid por causa da ruptura do SNS. Não há mesmo escapatória possível. A não ser andar a culpar os portugueses, tornado-os bodes expiatórios, mas sem a parte do expiatório.

Nota 1: O número de internados anunciados é o “stock” ao final do dia decorrente do número de internados no dia anterior, adicionados aos novos internamentos e deduzidas as saídas, que podem ser por duas vias: os doentes que receberam alta e aqueles que faleceram. A taxa de mortalidade do dia N é, assim, a divisão dos óbitos nesse dia pelo todos os internados do dia anterior (que era a população susceptível de morrer). Noutro prisma, por exemplo, uma taxa de mortalidade no dia N pode ser “transformada” em taxa de sobrevivência dos internados do dia N-1 no dia N, quer porque continuavam internados quer porque tinha recebido alta.